Semana passada não pude ser tão ativo aqui no blog como vinha sendo, só consegui colocar uma postagem. Filho doente e viagem a trabalho me impediram de estar mais presente. Por falar em viagem a trabalho, uma das poucas vantagens que vejo nessa situação consiste na oportunidade de dispor de mais tempo para a leitura. As horas de voo e a solidão do quarto de hotel nos convidam a essa prática. Nessa último compromisso, por conta das muitas horas dentro do avião, consegui terminar um livro: Leite Derramado, escrito por Chico Buarque.
Chico Buarque, na minha opinião, é disparado o melhor compositor brasileiro. Conheço praticamente todas as sua músicas; tenho todos seus discos de estúdio, além de alguns outros especiais: apresentações ao vivo, apresentações com algum convidado, temas de filme, temas de peças de teatro, coletâneas. Porém, apesar de ser fã do Chico músico, até então, nunca tinha lido um livro seu. Comecei justamente pelo último: Leite Derramado. Gostei bastante, tanto que fiquei com vontade de ler outros dele, para ver se também viro fã do Chico escritor.
Em leite derramado, esse artista nos apresenta um senhor de cem anos de idade que se encontra bastante doente no leito de um hospital. Eulálio, o nome desse senhor, conta a quem estiver presente no local, a história de sua vida e a saga de sua família. A história em sim não tem nada de especial, tampouco é complexa ou profunda, o que não significa que o livro seja vazio, pois não é; existem alguns conflitos psicológicos e reflexões filosóficas importantes. Além disso, a forma como o autor narra a experiência desse personagem a torna bem interessante. O desenlace de alguns dos acontecimentos são muitas vezes apenas sugeridos e as situações são descritas de maneira sutil, o que nos prende ao relato e nos leva a reflexão para tentar captar a mensagem deixada nas entrelinhas. O texto é muito bom, de leitura fácil e agradável, repleto de belas metáforas que tanto marcam as letras das músicas do Chico.
A narrativa foi construída de forma cíclica. É um vai-e-vem constante. Passado e presente, lucidez e loucura, misturam-se e confundem-se com frequência durante todo o livro, mesmo em pequenos trechos do relato. Por isso, deve-se fazer uma leitura atenta de cada pedaço da obra para não correr o risco de perder aspectos importantes para o entendimento da trama. Por conta dessa característica, por vezes, ficamos na dúvida se a história contada é real ou se não passa do fruto da mente perturbada do senil personagem.
Ao terminar o livro, provavelmente você sentirá vontade de reler, pelos menos, o seu início, que parece meio confuso e truncado por conta do estilo da narrativa com idas e voltas; e não se assuste se quando der por si já estiver lido todo ele de novo.
Lembram-se de que dias atrás contei que fui à bienal do livro aqui em Brasília para fazer algumas compras? Pois, além do livro de poema do Mário Quintana, também comprei um de outro poeta genial, Fernando Pessoa, intitulado Antologia Poética de Fernando Pessoa. Essa publicação traz poemas que esse autor assina com o seu próprio nome e outros assinados usando os seus heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Não tem como não usar a mesma expressão que usei para falar do Quintana: como é bom Fernando Pessoa! (sem rimas infames dessa vez).
A vantagem de conhecer uma obra em livros especializados e não se contentar só com o que nos apresenta as pessoas ou fontes duvidosas é que temos acesso a informações importantes para entender o contexto em que as criações foram geradas. Além disso, podemos tomar conhecimento do texto completo e não de sua versão distorcida ou fragmentada. Por exemplo, a célebre expressão "tudo vale a pena se a alma não é pequena" de Fernando Pessoa não é um poema completo, mas, sim, a parte de um (vou escrevê-lo abaixo), o que pode ser novidade para muitos, porque esse detalhe raramente é mencionado por quem a reproduz. Sem contar que a ouvimos tanto que ela chega a assumir vida própria.
Outro exemplo da vantagem citada acima é o esclarecimento sobre como se dá o processo de criação no momento em que Fernando Pessoa se vale de seus heterônimos. Segundo o livro, o próprio poeta escreveu: "Como escrevo em nome desses três? Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê." E como é impressionante a capacidade do autor em transitar naturalmente entre as quatro personalidades e dar identidade e características próprias para cada uma delas. Facilmente identificamos as diferenças de estilo quando o autor escreve por ele mesmo e quando ele escreve por meio de seus três personagens poéticos. Fantástico!
E ele é fantástico não só por esse aspecto, mas também pela riqueza de seus textos, pela sua linguagem rebuscada, pela profundidade de seus pensamentos, pela facilidade de lidar com as palavras e pela beleza de suas analogias e suas metáforas. Genial!
Alguns de seus poemas para nosso deleite.
Mar português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Autopsicografia
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração
Quinta/D. Sebastião, rei de Portugal
Louco, sim, louco porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há,
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Sem título
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes uma das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Para fechar as postagens da semana, mais um filme: A viagem do Capitão Tornado. Trata-se de uma comédia franco-italiana, dirigida pelo grande Ettore Scola. O roteiro é assinado pelo próprio diretor e por Théophile Gautier. Elenco: Emanuelle Béart, Guiseppe Cederna, Jean-François Perrier, Lauretta Masiero, Massimo Troisi, Massimo Wertmüller, Ornella Muti, Toni Ucci, Tosca D'aquino, Vicent Perez.
"A trama se passa na França do ano de 1774. O último e faminto herdeiro da família Sigognac deixa o castelo de seus ancestrais para acompanhar um grupo de atores itinerantes, a caminho da corte do rei." Esse é o resumo que copiei do sitenominuto (http://www.nominuto.com/vida/cinema/a-viagem-do-capitao-tornado-um-filme-sobre-teatro/33049/). Achei que ficou bom: sucinto e objetivo; então transferi na íntegra para cá. Para que quebrar a cabeça numa sexta-feira, não é mesmo?
Se não gostei da viagem da postagem anterior, essa aqui vale muito a pena. Engraçada, divertida, leve, cativante. Um comédia que, além de fazer rir, toca e emociona, pois, em certos momentos, apresenta alguns dramas e algumas histórias de amor. É bom lembrar que são histórias de amor no estilo Ettore Scola; ele não romantiza demais essas relações. Quer dizer...romantiza, mas até certo ponto, abrindo também espaço para o surgimento do amor mais racional. Por isso, muitas vezes, o desfecho das relações amorosas nos surpreende ou contraria a nossa torcida, mas a forma como ele trata a situação é tão elegante, sóbria e serena, que não ficamos chateados e passamos até gostar da solução dada.
E por falar em direção, Ettore Scola é soberbo. Dentro dos meus modestos conhecimentos de cinema e da arte de dirigir um filme, é o melhor diretor que já conheci (outras obras-primas dele que já vi: Nós que nos amávamos tanto, O baile, Feios, sujos e malvados, O jantar) . Como lhe é peculiar, ele conduz essa película com maestria. Tudo flui com naturalidade e precisão. E dá o tom certo ao humor. Muito bom! Recomendo fortemente.
Infelizmente não achei o trailer desse filme, então vão mais fotos
Hum...Bem...Por onde eu começo..? Vou ganhar algum tempo fornecendo as informações básicas e necessárias quando se apresenta um texto sobre qualquer filme: país de produção, gênero, diretor, atores, roteiristas. Vamos lá! País: França. Gênero: drama. Diretor: Hou Hsiao-Hsien. Elenco: Juliette Binoche, Simon Iteanu, Fang Song. Roteiristas: Hou Hsiao-Hsien e François Margolin.
Agora o resumo: Simon é um menino que é perseguido por um balão vermelho pela cidade de Paris. A mãe de Simon, por absoluta falta de tempo para cuidar dele, contrata uma babá chinesa. Essa babá, que é estudante de cinema, está produzindo um filme sobre um balão vermelho e apresenta a história ao menino. A Viagem do Balão Vermelho é um longa livremente baseado no curta-metragem intitulado O Balão Vermelho, de Albert Lamourisse, produzido em 1956.
Pois é...Então... Perceberam que estou enrolando, né? E estou mesmo. É complicado falar mal de um filme "cult", elogiado pela crítica e público, conduzido por um diretor cultuado. Bem...Até ganhar coragem, vou enrolar mais um pouco contando como conheci essa produção francesa. Foi por meio da minha mulher, que viu uma postagem na comunidade do Orkut (sim, ele ainda está vivo) elogiando esse filme. Então, alugamos.
Na capa, líamos várias críticas positivas, inclusive com o termo: obra-prima. "Opa, parece que vem coisa boa por aí!!" Pensei. Colocamos no aparelho e "play". Bem...o filme é...como eu posso dizer..? Lá vou eu me expor a pedradas ou garrafadas..!! (sabia que um dia esse nome iria se voltar contra mim, mas, beleza!). Bem...O filme...!! Ah! Quer saber? Que se exploda, inclusive o tal balão! Como não devo nada a ninguém e não tenho medo de parecer imbecil, lá vai!! O termo mais apropriado que encontrei para definir o A viagem do balão vermelho é CHATO. Sim o filme é muito chato!
Depois de vê-lo, corri para ler críticas sobre ele. Não achei nenhuma negativa, só elogiosas: cativante, sensível, emocionante, belo, comovente e por aí vai. "Hã??!!! Esse pessoal só pode estar de brincadeira!! Ou, então, O problema sou eu. Só pode!" Foi minha reação ao ler tudo isso. "Talvez o meu erro foi ter visto o filme no domingo, depois do almoço. "Pesquei" bastante e perdi alguma parte interessante da trama. Vai ver que foi isso." Continuei a pensar, buscando alguma explicação.
Essa explicação era bem razoável, porque isso já aconteceu comigo uma vez ao assistir a O fabuloso destino de Amélie Poulain. Vi esse filme com muito sono, perdi o encadeamento dos fatos e achei-o bem chato na hora, mas depois assiste a ele novamente e passou a ser um dos meu preferidos. Teria, então, que ver outra vez A viagem do balão vermelho para eliminar a possibilidade de o sono ter atrapalhado o entendimento da obra. Fui lá e aluguei-o de novo.
Fiz toda uma preparação especial para vê-lo dessa vez. Escolhi um dia em que estivesse bem desperto, atento, depois de uma noite bem dormida. Jantei uma comidinha bem leve, joguei água gelada no rosto, dei dois tapas em cada lado da face e coloquei o DVD no aparelho. Estava meio desconfiado, mas resoluto: "vamu que vamu!" Sem me esquecer, é claro, de deixar um pouco de água gelada por perto, por via das dúvidas.
Quatro horas depois (a duração é duas horas, mas para mim foi como se tivesse se passado o dobro), terminei o filme sem dar um cochilo sequer. Fiquei orgulho de mim mesmo. Daí tive certeza que o problema não foram os meus cochilos na primeira vez. O filme realmente é muito chato. A história é sobre nada, não acontece nada de interessante. É praticamente a reprodução de trechos comuns do cotidiano de uma família. Não senti nenhuma emoção. Não consegui extrair nenhuma lição, moral ou mensagem. Terminei o filme como comecei; ele não me acrescentou nada.
E não foi o ritmo devagar, quase parando, do filme que me incomodou. Já vi outros assim e gostei. Também não foram o estilo de filmagem meio descompromissado e a forma "despreocupada" de dirigir os atores que me desagradaram. Cito esses aspectos porque é um estilo diferente adotado pelo diretor. Ele não se preocupou muito com o enquadramento e o foco precisos das imagens. Às vezes, a câmera corria atrás dos personagem durante o diálogo: os personagens estavam aqui e o enquadramento, ali. Outras vezes, era o foco que ia se ajustando aos poucos. E quanto à atuação dos atores, havia a impressão de que eles estavam realmente vivendo sua vida real; aparentava que falavam de improviso, de tão livres e descomprometidos com algum roteiro que eles pareciam estar. Claro que tudo isso por opção, porque, segundo a crítica especializada, Hou é um diretor bem habilidoso.
Não, não foram esses fatores citados no parágrafo anterior que pesaram negativamete para mim! Não vejo problema no cinema mais simples, enxuto, "despreocupado"; contanto que tenha uma história interessante. E foi exatamente isso que me incomodou. A trama de A viagem do balão vermelho não é interessante, não surpreende, não traz uma elemento novo, não envolve, muito menos cativa. Talvez eu precise de mais sensibilidade ou de conhecimento técnico para enxergar essa beleza toda que tanto falam, porque as únicas belezas que vi foram Paris e o idioma francês.
Enfim, recomendo...recomendo a quem sofre de insônia (pode ser um bom sonífero). De qualquer maneira, vejam A viagem do balão vermelho (alerto para não fazer isso depois de uma feijoada, buchada, prato de mocotó ou qualquer outra comida pesada) e compartilhem aqui sua opinião. Contem o que sentiram. Porque, para mim, a falta de emoção foi tanta, que, para sentir alguma, me deu vontade de ouvir a música O nosso lindo balão azul; essa, sim, contagiante, envolvente, cativante...
Costumo brincar que não volto mais à roça onde meu pai nasceu e morou até a juventude porque lá hoje não tem mais graça, pois as casas já contam com energia elétrica acompanhada de todo o conforto e comodidade dela decorrentes, como luz, televisão, chuveiro quente. Bom mesmo era quando a luz provinha da lamparina, o único eletrônico por perto era um rádio a pilha e o banho era de rio, cuja água ficava gelada no inverno. Claro que pretendo voltar um dia à terra do meu pai, pois tenho parentes e amigos queridos no lugar, além de desejar saber como tudo ficou depois que a "modernidade" apareceu por lá
Mesmo não sabendo como atualmente está a vida na região, creio que a chegada da energia elétrica tenha influenciado de alguma maneira os hábitos locais. Provavelmente as pessoas não mais se reúnem na sala, iluminada pela luz vacilante de lamparina, com o fundo musical do rádio a pilha na mesa do canto, todos sentados nos seus tamboretes, para contar e ouvir "causos" (muitos verídicos, outros com a verdade aumentada, e até algumas mentirinhas) para o riso e reflexão dos presentes. Talvez hoje a televisão tenha tomado o lugar da lamparina, do rádio, dos contadores de "causo". Se ficou melhor ou pior, não sei; teria que conferir pessoalmente. De qualquer maneira, deixemos essa discussão para depois, porque esse não é o propósito da postagem.
Quero, com essa divagação, falar sobre o gênero musical típico do interior do centro-sul do Brasil, principalmente dos Estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e região sul da Bahia: o denominado Sertanejo ou Caipira (termo que muitos gostam de usar para distingui-lo do sertanejo moderno). Mais do que isso, quero compartilhar a reflexão suscitada por André Barcinski, um crítico da Folha de São Paulo, sobre a diferença da música sertaneja antiga e atual. O artigo desse crítico surgiu a partir da entrevista que ele participou com o grande músico sertanejo Renato Teixeira (quem desejar ler o artigo completo segue o link: http://andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br/2012/06/04/mudou-a-musica-caipira-ou-mudaram-os-caipiras/).
Segundo Barcinski, Teixeira respondeu, quando lhe pediram para listar a diferença do sertanejo antigo e o atual, o seguinte: “A música caipira sempre foi a mesma. É uma música que espelha a vida do homem no campo, e a música não mente. O que mudou não foi a música, mas a vida no campo.” Refleti sobre a teoria do Renato Teixeira, bem como sobre o comentário e as indagações de Barcinski. E sabe...! O músico pode ter razão! Claro que não dá para discutir profundamente esse tema numa simples postagem de blog, nem a intenção aqui é essa, porém é uma análise que merece destaque.
De fato as letras das músicas sertanejas de hoje, com raras exceções, como Deus e eu no Sertão de Vitor e Léo, não falam mais do amor inocente (muito pelo contrário), da saudade da terra, das belezas do campo, das vida simples na roça, como falavam as canções de antigamente. De alguns anos para cá, com o exôdo rural (nos últimos anos caiu, eu sei) e a tecnologia chegando ao interior, o distanciamento entre o campo e a cidade diminuiu. Não existe mais aquele isolamento e aquela solidão (termo que Barcinski usou) que tanto inspiravam os compositores antigos. Para saber se essa aproximação foi a principal responsável por essa mudança, é necessária uma investigação mais cuidadosa. Renato Teixeira indicou um caminho.
Apesar desse novo cenário ou exatamente por isso, ainda há espaço para resgatarmos as belíssimas canções caipiras antigas e lembrarmos os seus grandes representantes como: Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Sérgio Reis, Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Almir Sater, Chitãozinho e Xororó (no começo da carreira), além de outros. Afinal, a beleza da poesia, das melodias, dos arranjos, resiste ao tempo. Sem falar que o belo som da viola e da harmonia típica dos duetos ainda dão sossego aos ouvidos e à alma, independentemente de se conhecer ou não a realidade da vida no campo.
Escolhi duas músicas para postar aqui: Poeira, interpretada por Sérgio Reis, e Cuitelinho, na voz de Pena Branca e Xavantinho. Recomendo ainda as seguintes canções: Tristeza do Jeca, Vide, vida marvada, Inhambu-xintã e o Xororó, Luar do Sertão, Eu, a viola e Deus, Chalana, Disparada, Fogão de lenha, Saudade da minha terra.
Amanhã, a Companhia de comédia G7 volta com a peça Como Passar em Concurso Público. Assisti a esse espetáculo alguns anos atrás e gostei bastante, talvez porque tenha me identificado com a situação; aliás dificilmente existe alguém em Brasília que não se identifique com a situação. Aqui vale aquela máxima: se você não é concurseiro, já foi ou ainda será.
A peça conta a saga de um concurseiro para passar no "tão sonhado cargo de técnico do judiciário" (coloquei entre aspas porque a frase é do grupo de teatro e não minha). Não me lembro de muitos detalhes, só o suficiente para dizer que achei muitos trechos bem engraçados. Existe uma ou outra passagem sem graça, mas nada que comprometa. Enfim, o saldo geral foi bem positivo.
Apesar de já fazer um bom tempo que eu vi esse espetáculo, parece que não há muitas mudanças. Tomei o cuidado de consultar o site da companhia, e a história é a mesma; talvez eles atualizem algumas piadas, tirem um personagem aqui e coloquem outro ali, porém a essência da peça parece permanecer. Os atores, pelo menos, não mudaram; o que é positivo, porque os caras são bons. Dos grupos de comédia de Brasília que eu conheço, eles só perdem para Os Melhores do Mundo.
É um bom programa para o final de semana, não importa se você é concursado, concurseiro, concursando ou nenhuma das alternativas anteriores.
Para não dizerem que só coloco cantores franceses antigos, hoje vou postar um contemporâneo, no estilo rock. Tratar-se de Noir Désir, banda francesa de rock que mais fez sucesso na França e considerada, por muitos da crítica, a melhor que já apareceu no país nesse gênero musical. Uso os verbos no passado porque o grupo já não existe mais. Entrarei em detalhes sobre o seu fim mais adiante. Vou antes trazer um resumo da sua história.
Noir Desir foi formado no início da década de 80 pelos músicos: Bertrand Cantat (voz e guitarra), Denis Barthe (bateria), Serge Teyssot-Gay (guitarra) e Frédéric Vidalenc (baixo), esse último substituído por Jean-Paul Roy depois de 1996. Eles conheceram o sucesso com o seu segundo disco, Veullez rendre l'âme (à qui elle appartient), lançado em 1989, graças à canção Aux sombres héros de l'amer, que foi muito tocada nas rádios francesas, projetando a banda no cenário musical do país. Os dois álbuns seguintes (Du Ciment sou les Plaines e Tostaky) não tiveram a mesma repercursão midiática, mas o grupo continuou a fazer sucesso nos shows.
Em 1997, Noir Desir volta com força às rádios com as canções Un jour en france e L'Homme pressé, presentes no quinto álbum (666.667 Club), e com Le vent nous portera, do seu último álbum de estúdio, (Des visages des figures). Essa última música ficou, durante muito tempo, entre as mais tocadas na França.
No campo político, Noir Desir caracterizou-se por ser um grupo militante e engajado. Nas suas letras, protestava contra o capitalismo selvagem e contra o xenofobismo. Nesse último aspecto, aproveitava suas aparições públicas para deixar claro quais eram suas opiniões, criticando a postura dos políticos franceses de extrema-direita.
Chegamos, então, à parte que trata do início do fim do grupo, marcado por um fato trágico e lamentável, envolvendo o vocalista Bertrand Cantat. Em 2003, num episódio ainda não muito bem esclarecido, Cantat, durante uma forte discussão com a namorada, agride-a severamente . Alguns dias depois, ela morre em decorrência das agressões. Cantat foi preso e, em 2004, condenado. Mesmo com o seu vocalista encarcerado, Noir Desir ainda produziu algumas compilações e discos ao vivo, além de fazer alguns shows. Após a liberdade condicional de Cantat, em 2010, a banda criou pouco, e a produção de maior detaque foi a participação no álbum do cantor e compositor francês, Alain Bashung. No final desse mesmo ano, os integrantes anunciaram o fim do grupo.
Fui apresentado ao Noir Desir por meu irmão, que morou um ano na França e gostava das músicas dessa banda. A primeira canção que ele me mostrou foi Le vent nous portera (vídeo abaixo), da qual gostei logo de cara. Não entendi uma palavra da letra, mas a melodia e o arranjo eram muito bons. Ouvi as outras do mesmo álbum e também gostei. Virei, então, fã do grupo e fui atrás de outros discos. Hoje entendo um pouquinho mais de Francês e posso dizer que as letras também são muito boas.
Dos discos de estúdio, tenho quatro (Veuillez rendre l'âme, Tostaky, 666.667 Club e Des visages des figures), todos muito bons. Os três primeiros são de heavy metal, têm um som mais pesado, com muitas distorções de guitarra, tom mais agudo, além de vocais altos no volume e, às vezes, até gritados e raivosos, próprios desse estilo. No último, o som é mais leve, doce e melódico, em que eles fazem experimentações nos arranjos com a introdução de instrumentos pouco comuns ao rock; e o resultado é excelente.
O melhor disco, na minha opinião, é justamente o Des visages des figures, o primeiro que conheci, assim como a minha música preferida foi a primeira que ouvi: Le vent nous portera. Outras de que gosto: Aux sombres héros de l'amer, Oublié, Un jour en France, A ton étoile, Des visages des figures.
Vídeo de Le vent nous portera. Logo após, letra e tradução (com a devida licença poética). Gosto de prestar atenção ao arranjo do baixo elétrico. Muito bom!
Le vent nous portera
Je n'ai pas peur de la route
Faudrait voir, faut qu'on y goûte
Des méandres au creux des reins
Et tout ira bien (là)
Le vent nous portera
Ton message à la Grande Ourse
Et la trajectoire de la course
Un instantané de velours
Même s'il ne sert à rien (va)
Le vent l'emportera
Tout disparaîtra mais
Le vent nous portera
La caresse et la mitraille
Et cette plaie qui nous tiraille
Le palais des autres jours
D'hier et demain
Le vent les portera
Génetique en bandouillère
Des chromosomes dans l'atmosphère
Des taxis pour les galaxies
Et mon tapis volant lui
Le vent l'emportera
Tout disparaîtra mais
Le vent nous portera
Ce parfum de nos années mortes
Ce qui peut frapper à ta porte
Infinité de destins
On en pose un et qu'est-ce qu'on en retient?
Le vent l'emportera
Pendant que la marée monte
Et que chacun refait ses comptes
J'emmène au creux de mon ombre
Des poussières de toi
Le vent les portera
Tout disparaîtra mais
Le vent nous portera
O vento nos levará
Não tenho medo do caminho
Precisaria ver, é preciso prová-lo
Os meandros do corpo*
E tudo ficará bem
O vento nos levará
Sua mensagem para a Ursa Maior
E a trajetória da corrida
Uma fotografia doce
Mesmo que isso não sirva para nada
O vento o carregará
Tudo desaparecerá mas
O vento nos levará
O carinho e a saraivada de balas
E essa ferida que nos divide
O palácio de outros dias
De hoje e de amanhã
O vento os levará
A genética carregada nos ombros**
Cromossomos na atmosfera
Táxis pelas galáxias
E meu tapete voador
O vento o carregará
Tudo desaparecerá mas
O vento nos levará
O perfume dos nossos anos mortos
Esses que podem bater em sua porta
Infinidade de destinos
Nós escolhemos um, mas o que retemos dele?
O vento o carregará
Enquanto a maré sobe
E cada um refazendo suas contas
Eu levo no vazio da minha sombra
Poeiras de você
O vento as carregará
Tudo desaparecerá mas
O vento nos levará
* Tradução muito difícil, dado o sentido figurado da expressão. Literalmente significa "meandros no oco dos rins", mas não faz sentido. Pesquisei, e a interpretação mais frequente e que melhor se aplica ao contexto é essa, pois a música fala da relação de um casal: seu início, meio e fim. Creux de reins refere-se à região da genitália feminina.
** En bandouillère: refere-se à forma de carregar algo com um tipo de alça que vai do ombro até o quadril no lado oposto.