quinta-feira, 20 de setembro de 2012
O PEQUENO LEITOR
Como nas duas últimas postagens comentei sobre livros, gostaria de usar o espaço de hoje para divulgar um site destinado não só a estimular nos pequenos o hábito da leitura como também a provocar neles o desejo de criar suas próprias histórias.
Não quero aqui entrar no debate se é recomendável ou não a crianças usar aparelhos eletrônicos como computador, tablet, celular e afins. Não tenho conhecimento para tanto, nem é essa a intenção do blog ou dessa postagem. Só vim divulgar essa ferramenta para aqueles pais que, assim como eu, não veem problemas em seus filhos usarem esses dispositivos; desde que o uso seja feito com moderação, controle, segurança e supervisão de um adulto. Entendo que, se usados corretamente, para o propósito correto, esses máquinas podem ajudar a divertir e educar nossos filhos. Na minha avaliação, esse site cumpre essa tarefa.
Também não estou defendendo a substituição do livro físico pelo digital, acho que os dois podem coexistir tranquilamente. Cada um tem seu espaço. Meu filho mesmo não perdeu o interesse pelo livro impresso, mesmo acessando o digital; inclusive ele pede mais para ver o primeiro do que o segundo. E uma vez que nossos filhos convivem diariamente com eletrônicos e não controlam a curiosidade de saber o que vai nesses aparelhos, por que não lhes apresentar uma opção gratuita, de fácil acesso, divertida e instrutiva? Nesse assunto, sou da política de permitir com critérios, em vez de proibir totalmente. Mas respeito quem pensa de forma diferente.
Bem, depois dessas considerações, vamos falar do site. O Pequeno Leitor está dividido em várias seções, as principais são: Histórias, Sua Coleção, Crie Sua História e Piadinhas. As que merecem destaque são Histórias e Crie Sua História.
Na primeira seção destacada no parágrafo anterior, o site apresenta vários tipos de histórias, desde aquelas mais curtas e simples até as mais longas e elaboradas; algumas contam com quadrinhos animados, com ou sem narração; outras trazem apenas os quadrinhos e o texto, sem movimentos ou narração. Ou seja, existem histórias para todos os gostos e idades. Nessa seção, ainda, encontram-se aquelas criadas pelos próprios pequenos leitores (o processo de criação é feito na seção que descreveremos mais adiante). Outro ponto positivo é que, no texto de algumas histórias, o site destaca palavras e fornece o seu significado para que a criança enriqueça o seu vocabulário. Para os pequenos que não sabem ler, a presença de um adulto é imprescindível, mesmo nos contos narrados.
Quanto à segunda seção, Crie Sua História, o site disponibiliza grande variedade de temas que trazem uma sequência de quadrinhos (sem animação) para que a criança, com base nas imagens, crie o texto para sua história. Entre alguns exemplos de temas, encontram-se: animais, aventura, natal, fantasia e folclore. Vale lembrar que para acessar essa parte, é necessário fazer um cadastro.
Enfim, em um país como o nosso, um tanto indiferente aos encantos proporcionados pela leitura, talvez por falta de estímulo desde os primeiros anos de vida da criança, iniciativas que incentivem os pequenos a descobrirem a magia do mundo das letras são bem-vindas.
Segue o link do site
http://www.opequenoleitor.com.br/
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
BUDAPESTE
Mais uma viagem a trabalho, mais um livro do Chico terminado: Budapeste. Quando li Leite Derramado não tinha entendido a razão de algumas análises negativas a esse livro por uma parte do público e por uma parte da crítica especializada. Como tinha lido essa obra sem muitas expectativas, considerei-a muito boa. Pensei que encontraria um livro apenas mediado, já que não esperava que o Chico, excelente compositor, pudesse se destacar também na literatura. No final, me surpreendi, achei o Leite Derrado acima da média, e não vi tantas falhas como falaram.
Agora que terminei a leitura de Budapeste, entendi parte da decepção em relação ao Leite Derramado. Ainda não li os três primeiros livros desse autor (Fazenda Modelo, Estorvo e Benjamim) mas, segundo os especialistas, Chico vinha numa linha ascendente em termos de qualidade literária e caiu um pouco com esse último lançamento. Ainda segundo a crítica, depois de lançar livros inexpressivos, ele publicou Budapeste, obra surpreendente, inventiva, inteligente; porém, apesar do ótimo texto, voltou a derrapar com o Leite Derramado, que não apresentou novidades importantes.
Com a leitura de Budapeste, minha avaliação passou a ser semelhante a essa. Essa obra é bem superior à última do Chico. Além do excelente texto, a história é mais envolvente, instigante e inovadora, e permanece por mais tempo na nossa cabeça. Perto de Budapeste, Leite Derramado fica pálido e se destaca mais pelo bom texto do que pelos personagens e pela trama. Não que esse último tenha se tornado ruim ao meus olhos, continuo achando-o bom, mas perdeu um pouco do brilho.
A meu ver, a única evolução que percebi no Leite Derramado em relação a Budapeste, foi a presença mais apropriada, em termo de quantidade, de analogias e metáforas. No segundo livro citado, Chico lança mão em excesso desses recursos, o que trava e cansa um pouco a leitura. Alguns trechos ficaram assim: cansativos. Como o autor é muito bom em analogias - nota-se pelas suas músicas -, parece que as expressões desse tipo começaram a surgir aos montes no processo criativo, e ele se esqueceu de cortá-las na revisão. Ou eram tão boas, como realmente são, que ele ficou com pena de tirá-las, já que passou a amá-las como a um filho, que, por mais que se tenha, não se consegue abandonar nenhum (uma analogia pobre que me surgiu agora). Só pode ser isso! Porque não é possível que ele não tenha percebido que apareciam de forma exagerada, quase tudo tinha que ser explicado ou enfatizado com alguma analogia! Mas esse é um problema muito pequeno se considerarmos a qualidade da obra.
Já ia me esquecendo de colocar o resumo da história. José Costa é um escritor-fantasma, residente no Rio de Janeiro, que, por obra do acaso, passa algumas horas em Budapeste, mas não tem tempo de andar na cidade, só a vê por cima, mas no hotel conhece o idioma húngaro e se interessa muito por ele. Assim que tem a chance, volta à capital da Hungria para explorar a cidade e a língua. Uma vez em Budapeste, conhece Kriska, uma húngara que vai lhe ensinar os segredos desse idioma.
Leia. Se puder compre, pois é o tipo de livro que merece e deve ser lido mais de uma vez.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
INDIGNAÇÃO
Tomei conhecimento do Indignação, livro de autoria do premiado escritor norte-americano Philip Roth, ao ler críticas sobre o Leite Derramado de Chico Buarque. Nos artigos, os críticos falavam da semelhança entre as duas obras na sua ideia de colocar a voz narrativa num personagem à beira da morte, abordando também o contexto histórico de um país. Acrescentavam os críticos que Indignação era bem superior ao Leite Derramado.
Como tinha gostado do livro do Chico, resolvi conferir o do Philip Roth. E realmente concordo com os críticos, Indignação é superior ao Leite Derramado. O personagem principal é mais complexo, a narrativa mais bem articulada e as reflexões mais profundas. Sem contar que Indignação encarou o desafio de andar no terreno perigoso da adolescência (ou quase no fim dela, 18 e 19 anos), em plena vida universitária, com todos os seus conflitos e incoerências; fase em que momentos de maturidade e imaturidade alternam-se com frequência. Pois, o autor percorre esse terreno escorregadio com desenvoltura, sem deslizar para clichês, lugares-comuns ou pieguice.
Em relação ao texto, é difícil tecer comentário porque o de Philip Roth trata-se de uma tradução do inglês, e qualquer comparação pode gerar injustiças. Se foi obra da tradução ou não, posso dizer que o texto de Roth é mais enxuto, direto, ágil; o do Chico, por sua vez, é mais adornado, oblíquo, cadenciado. Os dois são muito bons, não dá para apontar o melhor, mas se me pedirem para escolher um, prefiro o Chico, simplesmente porque me identifico mais com o estilo do brasileiro. Questão de afinidade.
Falando do livro em si, Indignação relata a história de Marcus Messner, um adolescente de 19 anos que, para evitar conflitos com o pai cada vez mais controlador, resolve tentar a vida em outra universidade, situada em outra cidade, bem distante de sua casa. Nesse novo lugar, Marcus enfrenta os desafios que o novo ambiente e as novas companhias lhe impõem. A trama é simples, mas muito bem contada; é forte, pulsante, cortante. Recomendo a leitura.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O CHEIRO DO RALO
Ainda não tinha colocado postagem sobre um filme brasileiro, vamos para a primeira então. A produção nacional a que assisti esses dias foi o O Cheiro do Ralo. Ficha técnica? Pois bem...
Diretor: Heitor Dhalia
Elenco: Selton Mello, Silvia Lourenço, Flavio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Lourenço Mutarelli, Susana Alves.
Produção: Rodrigo Abreu, Marcelo Araujo, Matias Mariani
Roteiro: Marçal Aquino, Heitor Dhalia
Fotografia: José Roberto Eliezer
Ano: 2006
País: Brasil
Gênero: Comédia
Nesse filme, Selton Mello é Lourenço, dono de uma loja que negocia objetos usados. Lourenço é um sujeito frio, áspero, sarcástico, sincero ao extremo que vive jogando com os seus cliente para tentar levar o máximo de vantagem. No seu escritório, um cheiro terrível vindo do ralo do banheiro (ou dele mesmo) o incomoda muito. Além desse cheiro, a outra coisa que o perturba é uma atendente que trabalha na lanchonete onde ele costuma comer.
O Cheiro do Ralo começa muito bem: bom ritmo, engraçado, narrativa ágil (exceto pela insistência de Lourenço em se referir ao cheiro proveniente do ralo a cada cliente que aparecia, o que acabou ficando cansativo), história diferente. Estava gostando do filme; a trama estava envolvente e a atuação de Selton Mellor, fantástica. Parecia que algo interessante nos seria apresentado. Caminhou bem assim até um pouco mais da metade.
Foi quando tudo desandou (só o Selton Mello continou salvando o filme). O ritmo ficou acelerado demais, com excesso de frases de efeito soltas, de simbolismos, de encenações teatrais, de reações surreais, o que deixou a sensação que o filme fez esforço para ser do tipo "cabeça". Enfim, O filme se perdeu. Foi uma avalanche de informações que o deixou confuso: algumas passagens da história ficaram sem desfecho; outras, sem explicação. No fim, alguns temas, que poderiam ser mais bem explorados, ou foram esquecidos ou apressadamente resolvidos. E o final achei sem graça.
Para esse filme, não existe melhor bordão do que o proferido por Sr. Sandoval Quaresma, na escolinha do professor Raimundo, quando levava uma nota baixa por dar uma resposta estaparfúdia após várias precisas: "....Estava indo tão bem".
Trailer
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
A PELE QUE HABITO
Lá vou eu de novo me sujeitar a novas garrafadas por falar mal de um filme premiado e elogiado pela crítica especializada e que tem na direção um nome de peso. Trata-se de A pele que habito, dirigido por Pedro Almodóvar, com roteiro assinado por ele e Augustín Almodóvar. Esse suspense espanhol traz no seu elenco: Antônio Bandeiras, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo. Ele conta a história de um médico que mantém uma bela jovem em cativeiro para que possa desenvolver experiências com um novo tipo de pele, bem mais resistente que a natural.
Quero ressaltar que não tenho nenhuma implicância com o Almodóvar, pelo contrário, admiro o trabalho dele. Carne trêmula e Fale com ela são ótimos, e Tudo sobre minha mãe considero um dos melhores filmes a que já assisti na vida. Então, meus comentários negativos não estão contaminados por qualquer possível resitência ao diretor.
Pois bem...Ao contrário de A viagem do balão vermelho, captei as discussões que o filme propõe, pelo menos as mais evidentes, e achei interessantes e profundas. Então, o que não me agradou... Primeiramente o filme não me surpreendeu; suscitou poucas indagações originais. Disse poucas, mas, na verdade, só enxerguei uma, sobre a qual discorrei mais a frente. Depois, a forma como a trama foi executada também não me convenceu, tampouco me envolveu ou perturbou.
A pele que habito traz as marcas bem características de Almodóvar. Quando batemos o olho na obra, já reconhecemos de pronto suas digitais. Talvez, por isso, o filme não tenha funcionado para mim. A meu ver o gênero, suspense, nesse caso, precisava de uma abordagem e ritmos diferentes do que ele costumeiramente faz. Talvez se o diretor tivesse se reinventado para esse filme, como fazem constantemente Woody Allen e Stanley Kubrick, a história teria prendido mais a minha atenção.
Isto posto, passarei, então, aos exemplos do que eu quero dizer com poucas indagações originais. Primeiro, o constante conflito entre ciência, de um lado, e ética/moral, do outro, já foi abordado em diversas outras obras, só para ficar nos filmes: Laranja Mecânica e Frankenstein de Mary Shelley. Nesse último citado também encontra-se a discussão sobre as consequências trágicas dos atos motivados por um amor louco e a vontade do homem virar Deus, temas presentes nessa película do Almodóvar. A pele que habito sugere ainda outra reflexão já vista em outros filmes, que consiste na relutância do indivíduo em aceitar a perda de um ente querido, que, em razão disso, passa a projetar o seu amor em outra pessoa que tem semelhança física, natural ou forjada, com objeto amado. Essa reflexão, por sinal, já encontrei até mesmo num episódio do desenho animado da década de 80, O Pequeno Príncipe, que vi recentemente com meu filho (por favor, não entendam isso como ironia ou provocação).
Entretanto, não foram só assuntos repisados que apareceram na A pele que habito. Uma discussão inédita no cinema, pelo menos para mim, pode ser observada nessa produção. Trata-se do paralelo sugerido pelo filme entre a prisão entre quatro paredes e a prisão no interior de outra pele. Qual seria o recinto que mais aprisiona: um quarto trancado ou um corpo estranho? Muito profunda e instigante. Mas foi só.
De fato, não só de conteúdo, inédito ou batido, vive uma obra. A forma como a ideia, ainda que habitual, é conduzida também pesa muito na sua composição e pode torná-la interessante, até espetacular. Porém, tampouco, nesse sentido, o filme me agradou totalmente. Para um suspense, achei que a voltagem da tensão foi baixa. Existe alguma sim, mas dura até o grande enigma, que em certo momento ficou previsível, ser revelado. Depois desse instante, a temperatura emocional do filme caiu um pouco. Nem mesmo a condução do tema novo a que me referi no parágrafo anterior me entusiasmou. O filme não conseguir me transmitir a possível aflição que a personagem deveria sentir por estar enclausurada numa pele estranha ou quarto trancado.
Também achei que A pele que habito deixou algumas lacunas que dificultaram o meu envolvimento com a trama. Não que tudo deveria ser bem explicadinho, nos seus mínimos detalhes; sei que não é característica do Almodóvar, pois ele prefere sugerir, e isso não me incomoda. Mas uma narração, monólogo ou diálogo poderia esclarecer melhor algumas passagens, reações ou decisões tomadas pelos personagens, sem entregar demais.
Quanto às atuações, achei a do Antonio Bandeiras bem morna e burocrática. Por ser um personagem forte, entendo que ele deveria ter tido uma interpretação mais contundente e incisiva; a exemplo da executada por Marisa Paredes, que, apesar da participação menor, conseguiu me transmitir toda a sua angústia com a situação. A personagem dessa atriz me marcou bem mais que a do Bandeiras, que não conseguiu me envolver ou provocar em mim qualquer sentimento, que seja de amor, ódio ou compaixão. Elena Ayala interpretou bem, principalmente no final, com uma participação bem marcante, mas, em alguns momentos, também faltou contundência.
Por falar em final, foi a melhor parte do filme (não, não é aquela óbvia piada: "ah, porque o filme acabou!" Gostei dessa parte realmente). Achei-o suave na execução, mas forte e comovente na mensagem. Também cabe ressaltar como aspecto positivo, a capacidade de Almodóvar de transitar entre o trágico e o cômico, sem perder a elegância; marca registrada do seu trabalho.
Enfim, considero o filme bom, mas esperava mais, justamente por ser do Almodóvar. Somado a isso, havia a expectativa de ver um filme de suspense dirigido por esse brilhante diretor, algo novo para mim. Esperava um filme inovador, eletrizante, envolvente, e não foi o que eu vi. Talvez o excesso de expectativa tenha prejudicado a minha forma de apreciá-lo.
Trailer
terça-feira, 28 de agosto de 2012
DAMIEN SAEZ
Já apresentei dois cantores/compositores franceses antigos e uma banda contemporânea. Para equilibrar essa relação, vou apresentar outro de tempos recentes, que, ao contrário do Noir Desir, continua na ativa. Seu nome: Damien Saez. Cantor e compositor no estilo rock/pop do cenário da música alternativa francesa.
Da mesma forma que o Noir Desir, fui apresentado às músicas do Damien Saez por meu irmão. A identificação com o trabalho desse artista foi imediata. A primeira que ouvi foi Jeune et con do álbum Jours étranges, o primeiro do cantor. A música é um rock com letra engajada que critica a sociedade francesa. Por sinal, o álbum é predominamente de rock com alguns elementos de pop e de eletrônica, mas contém igualmente baladas melancólicas e até jazz. Na minha opinião, dos que eu conheço, esse é o melhor dele ao lado de Paris.
O disco Paris, com gravação acústica inserida numa atmosfera bem intimista, compõe-se, por sua vez, majoritariamente de baladas com arranjos bastante melódicos acompanhados de letras poéticas. O resultado são belos poemas com sonoridade doce e leve. Gosto de todas as músicas desse álbum, mas para mim as melhores são: Jeunesse, léve-toi; Le cavalier sans tête; S'en aller e Toi tu dis que t'es bien sans moi.
O último disco do cantor, J'accuse, dominado mais uma vez pelo rock, considero inferior aos outros dois comentados acima. Se fosse para qualificar, diria que é apenas bom. Achei as músicas meio repetitivas. O cantor me pareceu pouco criativo; não vi nenhuma novidade.
Além desses, Saez produziu God Blesse, Debbie, Varsovie, L'Alhambra (esses dois últimos compondo uma espécie de triplo com Paris), A lovers prayer. Como não os conheço, vou me abster de emitir opinião.
Segue vídeo da Jeune et con e Le cavalier sans tête, respectivamente.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
KAMCHATKA
Depois do Um conto chinês, o blog traz hoje mais uma produção do cinema argentino, que ostenta esse nome esquisito aí do título da postagem. O filme é dirigido por Marcelo Piñeyro, e o roteiro é assinado por Marcelo Filgueira e pelo próprio diretor. Elenco: Matías del Pozo, Cecilia Roth, Hector Alterio e...? Ganha uma Kamchatka quem acertar o outro protagonista (sem pesquisar no google, nem olhar a capa acima, hein!!) Pistas? A primeira é que se trata de uma película argentina, e ele tem aparecido em quase todas importantes nos últimos anos. Com essa já dava para matar, mas aí vão mais algumas dicas: ator extremamente talentoso, moreno, olhos verdes, narigudo, também protagonizou Um conto chinês. Ficou mole! Sim, Isso mesmo!! Ricardo Darín. Como todo mundo acertou, e só tenho um exemplar do prêmio, não vou dar para ninguém.
Provavelmente, o leitor está se perguntado: "Que raios é Kamchatka?" Já adianto que não poderia servir como prêmio; não nessa minha brincadeira. Então, alguém arrisca: "seria a gíria argentina equivalente ao nosso Tchaka Tchaka na Mutchaka?" Não, não é um filme erótico. E outro chuta: "seria uma posição do Kama Sutra?" Pô!! já disse que não é um filme erótico!! Um terceiro dá o seu palpite: "talvez seja a saudação de algum povoado numa região remota no norte da Lituânia". Parece bem convincente, mas também não é isso. Aí, antes da minha resposta, surge um chato ou chata e, arrotando conhecimento, discorre com toda a propriedade: "Kamchatka, Camecháteca ou Camchaca (em russo: полуо́стров Камча́тка) é uma enorme península com cerca de 1250 km de extensão, localizada na região oriental da Rússia, e cujo ponto mais elevado é o Klyuchevskaya Sopka. Fica a leste do Mar de Okhotsk e Golfo de Shelikhov." Pô!! Parabéns, meu amigo ou amiga...!!! Parabéns pela sua habilidade em decorar textos do Wikipédia!! (Mas quem é que não recorre ao Wikipédia? De onde você acha que tirei isso? Mas lhe asseguro que fiz a devida checagem das informações)
"Ok! Já sei o que é Kamchatka, mas o que a tal península tem a ver com o filme? Pensei que a história se passava na Argentina?" questiona mais alguém. E se passa, mas não vou dizer, de jeito nenhum, qual a relação entre essa região russa e essa obra cinematográfica, vai ter que assistir a toda ela ou buscar no google. Sugiro a primeira alternativa, pois é um bom filme. Agora, mesmo que tenha se aguentado e tenha pesquisado na internet para matar a curiosidade, veja-o assim mesmo; vale a pena.
Os acontecimentos são apresentados sob a ótica do menino Harry (Matías del Pozo), de dez anos de idade, que tem o seu cotidiano totalmente alterado pela necessidade de fuga dos pais (Ricardo Darín e Cecilia Roth), que estão sendo perseguidos pela ditatura militar que governa a Argentina na década de 70. O destino da família (os pais, Harry e o irmão) é uma fazenda abandonada, onde vai se passar quase toda a trama.
Não sei se por ser pai de dois meninos e, por isso, estar mais sensível a qualquer drama envolvendo crianças, achei Kamchatka muito triste. Não é uma tristeza escancarada, mas sutil; por vezes, sugerida. O filme não apresenta situações fortes para chocar e comover. Não vemos cenas de captura, prisão, perseguição, tortura; nada nesse sentido. O terror da ditadura só é abordado de forma indireta. Ainda assim, devido à habilidade do diretor, ao competente texto e às excelentes atuação de Darín e Roth, a angústia e tristeza estão presentes em boa parte do filme.
Mas Kamchatka não é só triste, também é bonito. Cenas da família reunida, do romantismo do casal, da amizade entre os irmãos, do cuidado do mais velho em relação ao mais novo, são todas bem tocantes. Os momentos de adversidade, em vários casos, promovem situações de união e nos fazem enxergar a importância dos nossos amados, o que, muitas vezes, ignoramos quando a situação encontra-se estável. Creio que, além de muitas outras, talvez seja essa uma das valiosas mensagens do filme.
Assistam!
Trailer (não achei um legendado)
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