Vencido mais uma vez pela minha curiosidade (quero ver até aonde essa minha curiosidade vai me levar), li o livro da moda: Cinquenta Tons de Cinza, da escritora inglesa E. L. James. Falam tanto desse livro que não aguentei e resolvi conferir o que ele trazia que despertava tanta discussão. O que eu achei? Bem...Sabe aqueles filmes românticos bem água com açúcar? Pois é, assim é o Cinquenta Tons de Cinza. Todos os elementos desse gênero de filme estão lá: trama de enredo fácil e previsível, personagens caricatos e superficiais, clichê aos montes, e, claro, uma história de amor bem fantasiosa. É possível resumir a história em duas linhas, sem muitos prejuízos para o entendimento: garota de 21 anos de idade, que se comporta como adolescente de 17, sem grana, desajeitada, simples, mas bonita, envolve-se com ricaço bonito, poderoso e misterioso.
A principal diferença do Cinquenta Tons de Cinza para esses filmes é que, além dos dois ingredientes acima, adicionou-se à fórmula boa dose de pimenta. E não é qualquer pimenta, não! Nesse caso, ela veste fantasia de couro e empunha chicote, algema e mordaça. Pois é...O livro aborda o universo BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão e sadomasoquismo). Se a obra é fiel a esse mundo, não faço ideia, pois não sou adepto dessa prática, nunca li nada a respeito e não me interesso nenhum pouco pelo tema. Por isso, vou abster-me de comentar a importância desse livro nesse aspecto. Não sou a pessoa mais indicada para isso. Prefiro falar dos aspectos, digamos, mais literários (embora eu tampouco seja a pessoa mais indicada para a tarefa; mas, nesse âmbito, atrevo-me um pouco mais) .
Em termos literários, não vi nenhum valor em Cinquenta Tons de Cinza. O livro não acrescenta absolutamente nada nesse sentido. Ao lê-lo, tive a nítida impressão de que E. L. James escreveu o seu livro sem nenhum compromisso ou preocupação, sem pesquisas ou estudos. Parecia trabalho de amador, de tanto que a obra é vazia literariamente. Mais tarde, ao pesquisar sobre o origem do livro, soube que a autora tinha escrito algumas histórias para o site de fãs da saga Crepúsculo, em que os internautas criam a própria ficção com base nos personagens ou situações dessa trilogia. Os leitores desse site gostaram das histórias de James, uma editora se interessou por elas e as publicou. Tudo, então, estava explicado!! Vou, a seguir, entrar em detalhes a respeito do que não gostei na obra. E, por falar nisso, detalhe nesse livro é o que não falta.
A leitura é extremamente cansativa, por conta da preocupação excessiva da autora em descrever minúcias desnecessárias de tudo. Ela chega ao absurdo de detalhar, por exemplo, a xícara em que foi servido o chá para a protagonista, sem que isso contribuísse com nada para trama. E o detalhamento excessivo não é só em relação aos objetos e lugares, mas também em relação às reações dos personagens. Perdi as contas de quantas vezes aparecem no texto as expressões: engolir em seco, morder os lábios, enrubescer, corar, franzir a testa, arquejar, ficar boquiaberto e outras. Sem falar das constantes intervenções de humor infantil do inconsciente e da tal "deusa interior" da protagonista. Muito chato! Nem a descrição das cenas de sexo me impressionou - as metáforas, por exemplo, são bem fraquinhas - e, como essas cenas ocorriam a toda hora, o texto ficou muito repetitivo. Ou seja, muita enrolação. O livro tem quase 500 páginas, mas poderia ter muito bem 50. Opa! Tá aí! Isso até ajudaria no Marketing!
Por conta de toda essa enrolação, logo no primeiro capítulo descobri a razão do título da obra. A narrativa é tão enfadonha que as vistas rapidamente se cansam; as palavras, então, começam a se embaralhar e a se desvanecer. Aos poucos, a tinta preta das letras se transfere para o fundo branco do papel, que passa a escurecer lentamente por conta da pigmentação cinza que se desprende dos sinais gráficos. As letras e o papel vão se aproximando um do outro, em termos de tonalidade, até ficarem iguais e, assim, transformarem-se numa só massa cinzenta e sonolenta. Não parei para contar quantos tons de cinza surgiram ao longo desse processo de transferência, mas não duvidaria se a conta desse os tais 50. Só não desisti da leitura porque não gosto de deixar nada pela metade; além disso, já tinha dito para algumas pessoas que iria comentá-lo aqui no blog. Então, fui até ao fim.
Enfim, O Cinquenta Tons de Cinza não teve nenhum apelo para mim, nem mesmo serviu como diversão. Não sei o que viram nesse livro, talvez um pouco de futilidade para matar o tempo; assim como veem, às vezes, nos filmes românticos água com açúcar. Se eu vou ler a continuação, o tal Cinquenta tons mais escuros? Se no primeiro a coisa já ficou preta para mim, imagina com tons mais escuros! Não sou tão curioso e obstinado assim.
A gente se vê na próxima!