sexta-feira, 17 de maio de 2013

BALÉ NACIONAL DA RÚSSIA - O LAGO DOS CISNES


Como eu havia informado, no sábado passado, a companhia Balé Nacional da Rússia apresentou aqui em Brasília o espetáculo Lago dos Cisnes. Fui lá conferir. Uma vez que meu conhecimento em balé é nulo, não vou arriscar fazer qualquer tipo de análise. Vou encher minha postagem com informações e curiosidades que achei nas minhas pesquisas sobre essa belíssima peça.

A peça foi encomendada pela companhia de Teatro Bolshoi, em 1875, ao compositor, Tchaikovsky. A estréia em 1877 foi um total fracasso. A coreografia não funcionou, o desempenho da protagonista foi medíocre, os bailarinos acharam a música impossível de se dançar, e o público achou-a barulhenta. Um fiasco. Em 1895, dois anos depois da morte de  Tchaikovsky, Petipa e Ivanov, para homenagear o compositor falecido, criam uma nova coreografia para o espetáculo. o compositor Drigo ficou encarregado de fazer ajustes na partitura. Essa nova versão alcançou estrondoso sucesso e foi responsável por tornar Lago dos Cisnes essa obra tão marcante.

Ninguém sabe ao certo a verdadeira fonte inspiradora do enredo, escrito por Begitchev, Geltser e o Tchaikovsky. Cogita-se que foi baseado em lendas russas, que sempre destacaram a figura do cisne, bem como na pessoa do Rei Luis II, que exercia grande fascínio no compositor russo. Segue a história (retirada do blog http://sonhodebailarina.blogspot.com.br.) 

Prólogo: A Princesa Odette, de beleza ímpar, passeia distraidamente, quando é capturada e enfeitiçada pelo cruel bruxo Von Rothbart, que a transforma num belo cisne.

Primeiro ato: O Príncipe Siegfried comemora sua maioridade junto a amigos e convidados e ganha de sua mãe, a rainha, uma arma de caça. Na noite seguinte deverá escolher uma noiva para desposar, tornando-se o rei. Com a chegada da noite, o jovem príncipe fica sozinho e angustiado e decide ir ao lago caçar.

Segundo ato: Em busca de delicados cisnes, Siegfried se aproxima do lago e vê um belíssimo cisne branco. Prepara sua arma para atirar e subitamente o pássaro se transforma na mais linda jovem que já vira: Odette, a rainha dos cisnes. Ela conta ao príncipe o encantamento de que foi vítima e que somente um amor puro e verdadeiro será capaz de libertá-la. Ele logo compreende que a bela e triste Odette é o seu grande amor e ela imagina ter encontrado seu salvador. O casal se apaixona, trocam juras de amor e prometem se unir.

Terceiro ato: Na festa de seu aniversário, Siegfried deve escolher uma noiva dentre as lindas donzelas presentes, porém, nenhuma das jovens atrai sua atenção. Subitamente, o bruxo entra no baile com sua linda filha Odile, vestida de negro e com a aparência idêntica à de Odette. O Príncipe fica enfeitiçado pela beleza e sensualidade de Odile e apaixona-se por ela. Sendo assim, a nova jura de amor anula a promessa feita à Odette que permanecerá para sempre presa ao feiticeiro. Quando Siegfried percebe que foi enganado, se desespera e parte em direção ao lago para se encontrar com sua amada Odette.

Quarto ato: As jovens cisnes, tristes com a tragédia de Odette, dançam desesperadamente em torno de sua rainha. Odette lhes conta que Siegfried quebrou o juramento. O Príncipe se aproxima e implora o perdão de sua amada e a jovem rainha o perdoa. O bruxo tenta com todas as suas forças separar os amantes, mas Siegfried enfrenta o terrível feiticeiro pela força do amor e sai vencedor. O feitiço que mantém presas todas aquelas jovens é desfeito. A aurora anuncia a chegada de um novo dia. Odette e Siegfried atingem, enfim, a plenitude de um amor ideal e eterno.

Foi essa versão que o Balé Nacional da Rússia apresentou no último sábado. Existe uma outra versão praticamente igual a essa, mas com um final diferente. Nesse caso, o jovem Príncipe Siegfried e Odette se jogam no lago e só assim podem ficar juntos e felizes para sempre. Podemos ver esse segundo final no filme O Cisne Negro. 

Esse espetáculo é belíssimo. Em alguns momentos se afigura tenso e vibrante, em outros, comovente e tocante. Como leigo, gostei bastante da coreografia apresentada pela companhia Balé Nacional da Rússia. Me envolveu e me impressionou até o fim. 

Segue o vídeo de um dos pontos altos da peça. Ocorre no final do segundo ato, quando Siegfried e Odette, após se conhecerem e se apaixonarem um pelo outro, têm que se separar em razão do tal feitiço. Talvez seja esse o trecho musical mais famoso de O Lagos dos Cisnes. Lindo casamento entre música e coreografia. Emocionante.

Vídeo do final do segundo ato. Está no final de uma música; esperem um pouco que logo começa o trecho a que me referi acima. (Não achei a apresentação do Balé Nacional da Rússia. Postei esse mesmo para vocês terem noção do que consiste o final do segundo ato. O vídeo não é dos melhores; gravação amadora, distante, som ruim; até tosse tem no meio; mas foi o único que achei que isola essa parte da peça).








sexta-feira, 10 de maio de 2013

ESCOLA DO TEATRO BOLSHOI NO BRASIL - DOM QUIXOTE


Olá a todos.

Depois de muito tempo, estou de volta. Quando estava pegando o ritmo, entrei de férias, aí já viu, né...? Além de dispor de pouco tempo, quando eu o tinha, batia aquela preguiça. Ela foi parcialmente curada hoje. Vamos ver se ela me deixa em paz por um bom tempo. Com preguiça ou não, vou tentar ser mais regular dessa vez. Sigamos para a postagem de hoje.

Dom Quixote é um dos meus livros favoritos. Justamente por isso, quando vi o anúncio de que a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil faria uma apresentação aqui em Brasília e, o melhor, gratuita, tratei de correr atrás do ingresso. Três horas de sol na moleira depois (quem é careca sabe o tanto que a pele da cabeça sofre ao sol), garanti o meu ingresso e o da minha mulher. A apresentação foi no ginásio Nilson Nelson, no dia vinte e cinco do mês passado.

Toda apresentação em ginásio tem os seus inconvenientes: desconforto, tumulto para entrar e sair, os lugares não marcados, grande distância do palco. Ainda assim achei que valia a pena. Primeiro porque poderia prestigiar, pela primeira vez, uma apresentação de balé ao vivo. Depois para valorizar a iniciativa de promover  arte e a cultura, ainda mais de uma modalidade pouco conhecida e difundida no Brasil, e a Escola Bolshoi parece ter um bom projeto nesse sentido.

E valeu a pena. Não espere uma avaliação profunda porque sou totalmente leigo nessa arte. Quer dizer, não espere avaliação nenhuma. Observei o que qualquer pessoa comum observaria. A beleza dos movimentos, da coreografia e das fantasias. Mesmo não entendendo nada, gostei muito da apresentação. Claro que não dava para exigir muito, afinal a maioria dos bailarinos, por se tratar de uma escola, tinha entre 9 e 19 anos; percebi somente dois ou três acima dessa idade. Por esse motivo, mesmo eu sendo leigo, reparei algumas pequenas falhas na apresentação. Erros de posicionamento, sincronia, entrada, saída. Mas nada muito grave.

A decepção ficou por conta da participação do Dom Quixote e do Sancho Pança. Lembro-me muito pouco da história, pois li o livro há bem mais de dez anos. Porém, se eu não estou muito enganado, lembro bem que o Dom Quixote era o personagem principal e mais ativo da trama. Já a versão apresentada pela escola Bolshoi relegou ao Dom Quixote o papel de coadjuvante, bem coadjuvante mesmo. Ele não dançou em nenhum instante, ou ficava sentado ou dava umas caminhadinhas para lá e para cá. Achei tão estranha essa participação que, quando anunciaram a presença do Governador Agnelo Queiroz, cheguei a cogitar que se tratava de uma surpresa da atração, e ele, por ser alto e magro, teria feito o papel de Dom Quixote. Estava só esperando o momento dele se livrar da fantasia. Outra decepção, não era ele. Aliás, eu, por ser alto e magro, bem que poderia ter feito o papel de Dom Quixote também. O Sancho Pança ainda ensaiou alguns passos de dança, mas bem pouco.

Apesar das tais falhas e dessa decepção pessoal, o espetáculo foi muito bom e gostei muito da experiência de ver balé clássico ao vivo. Realmente, é muito bonito. Gostei tanto que já adquiri ingressos para a apresentação da companhia Russian State Ballet (essa sim formada por bailarinos profissionais), com o espetáculo Lago dos Cisnes, que vai ocorrer no sábado agora no Centro de Convenções. Acho que ainda é possível encontrar ingressos. Se tiver interesse, dê um pulo no Brasília Shopping. Fica a dica.


quinta-feira, 14 de março de 2013

QUIÇÁ


Resolvi ler algum escritor brasileiro da nova geração. Em pesquisa na internet, achei o nome de Luísa Geisler, vencedora do prêmio Sesc de Literatura por dois anos consecutivos: em 2010, na categoria Conto; e 2011, na categoria Romance. Também foi escolhida por uma renomada revista inglesa de literatura como uma das vintes melhores escritoras brasileiras de sua geração na atualidade. Vi comentários elogiosos à autora. Li algumas resenhas a respeito dos seus dois livros; a maioria positiva. Fiquei curioso e comprei o seu romance, cujo título é Quiçá.

A história de Quiçá é simples: após tentar o suicídio, Arthur, um problemático garoto de dezoito anos, que mora numa cidade pequena do interior, vai morar, por um ano, com os tios (Augusto e Lorena) e a prima (Clarissa), que vivem numa cidade grande. Com a convivência, os dos primos começam uma amizade. Ao mesmo tempo, o livro conta os acontecimentos de um almoço de Natal na família dos personagens. E, ainda, entre um capítulo e outro, a autora coloca alguns fragmentos de textos que podem ser pequenos contos, citações, crônicas, curiosidades. Ou seja o livro está estruturado em três eixos: o período de uma dia (almoço de natal), de um ano (o período em que Arthur mora com os tios e a prima) e de uma vida (os tais fragmentos).

Para dar a minha opinião sobre o livro, vamos imaginar uma conversa hipotética entre mim e um amigo.

O amigo vai me visitar na minha casa e aproveito para devolver o livro (Quiçá) que ele me emprestou. Na hora do lanche, ele puxa assunto sobre a obra.

- E aí? O que achou de Quiçá?

- Humm... Achei apenas razoável. Confesso que esperava mais, ainda mais porque ele foi vencedor de um prêmio.

- Ah, é, cara?! E do que não gostou?

- Bem... A história não me cativou, nem me identifiquei com os personagens. Também não gostei da narrativa dela. Não sei. Não vi nada de interessante na trama, nada que me envolvesse ou surpreendesse. Não achei nenhum personagem marcante. O tal Arthur é o esteriótipo do adolescente rebelde. A menina foi mais bem construída, mas tinha atitudes, postura e linguagem, muitas vezes, maduras demais para a idade. Não os comprei. E a narrativa é meio amarrada; não desenvolve. Ela abusa de alguns recursos que não me agradam como: escolher uma palavra ou expressão e repeti-la a cada começo do período seguinte ("o carro vibra, os pais conversam, barulho da estrada.......O carro vibra, barulho da estrada"), ou colocar um monte de complemento em sequência (...."levava Clarissa para a casa de amigos, que falavam palavrões, que jogavam videogames violentos, que ensinavam Clarissa a jogar videogames violentos, que comiam salgadinhos, que bebiam álcool, que..., que..., que..."); e outro é colocar hífen entre as palavras de uma frase para que ela funcione como uma palavra só ("cada vez mais onde-é-que-tá-minha-bolsa"). Ela fez isso muitas vezes no texto. Esses artifícios tornaram a narrativa meio enfadonha e amarrada. Outros recursos que achei chatos: o primeiro é  que todas as vezes que ela citava a televisão (e citou muito), ela repeita a configuração do aparelho; muito chato. Imagino que foi para reforçar o caráter consumista da família, nos colocar na cena, mas ficou cansativo. O segundo é que, em muitos diálogos, ela usava em sequência, ao final da citação de cada personagem, o "ele disse"ou "ela disse"; um atrás do outro. Não dá! Mais um outro problema: algumas situações me pareceram inverossímeis, como a de os profissionais de um estúdio de tatuagem acharem que Arthur (18 anos, magro e andrógino, ou seja, aparentaria ser mais novo ainda) seria pai de uma menina de onze anos. Meio difícil de engolir. Sinceramente, gostei mais dos fragmentos que ela colocou entre cada capítulos. Alguns eram bem legais. Só para citar um: a mulher que ia ser apedrejada. Muito bom. Talvez ela seja melhor contista do que romancista, já que fiquei sabendo que ela já ganhou um prêmio de contos.

- É. Pode ser. Ainda não li o livro de contos dela, não. Mas.... Queria discutir os defeitos que você citou. Será que esses deslizes não ocorreram por causa da pouca idade, da inexperiência dela como escritora? Ela só tinha 20 anos quando escreveu Quiça.

Quase engasgando com a bebida devido ao susto, reajo à grande surpresa perguntando admirado:

- O que?!! 20 anos?!!  Tem certeza?!

- Sim. Tenho.

- Caramba!! Realmente, ela é um prodígio. Ela tem percepção bem aguçada da vida para a pouca idade. Agora entendo alguns deslizes. Totalmente perdoada.

- Sim. Acontece. Talvez, por ser nova, com tanta ideia na cabeça, tenha se empolgado e não tenha sabido dosar esses artifícios. Mas não viu mais nenhuma virtude nela? Pergunta o meu amigo.

- Vi. Ela é ousada, corajosa; isso é bom. Como você disse: sabendo dosar, essa coragem e essa ousadia são positivas. Além disso, como diz na orelha do livro: "a autora revela ter boa e compreensiva cultura literária". Ela conseguiu também ter o domínio da trama; não perdeu o rumo da história, apesar da estrutura diferente, da ordem cíclica que ela empregou. Parece ser algo difícil de fazer. Ela também soube captar e descrever as sensações dos momentos mais simples do dia a dia. Outro aspecto bem positivo é que ela não escorregou para o sentimentalismo. Ela conta, de forma sóbria, uma história triste de uma criança solitária, mas que tem seus momento de alegria ao desfrutar de uma amizade improvável com seu primo rebelde de dezoito anos. E também não apelou para soluções fáceis. Isso revela habilidade. Gostei ainda do desfecho. Ela soube terminar o livro e, no final, deixou tudo em aberto, o que tem a ver com o nome do livro. Quiça ela fale. Quiça seja diferente se ela contar.

- E essa estrutura composta por três momentos diferentes? Não achou legal, não?

- Bem... É que, para mim, não é tão diferente assim, pois o Chico fez algo parecido no Leite Derramado, só não fez uma divisão tão precisa do tempo. Em cada capítulo no livro do Chico, o personagem começa com o presente, conta o passado e volta ao presente. A Luísa Geisler fez mais ou menos isso também, mas delimitou o período: um dia e um ano. E outra diferença para o livro do Chico é que ela incluiu aqueles pequenos trechos ao fim de cada capítulo.

- Achei bacana a reflexão que o livro sugere. Diz meu amigo.

- Não sei se foi a mesma que você teve. Afinal isso é meio subjetivo, pessoal. Cada um tem uma percepção.  Mas a que eu tive achei bacana também. O livro nos instiga a pensar em como tudo poderia diferente se as decisões fossem diferentes. Decisões egoístas e precipitadas podem prejudicar a vida de muitos. Mas tudo é um talvez; não dá para ter certeza. Quiçá.

- Sim também vi isso. E também refleti sobre a relação entre pais e filhos, em ser um pai mais presente e atencioso. E, como você disse, pensei na tristeza da vida da menina, e também na beleza da amizade dos dois personagens principais, Arthur e Clarissa. Algo que era improvável, pela diferença - de idade e personalidade - entre os dois personagens, mas que a situação triste de cada um tornou possível. Essa situação os levou a verem um no outro certa esperança de uma vida melhor.  Ah! E também a "forçação" que são esses almoços de Natal só para manter a aparência de unidade na família.

- Sim. Isso tudo também. Bem lembrado.

- Recomendaria o livro?

- Recomendaria sim. É um bom livro. Mas acho que é mais apropriado para adolescente ou leitores inexperientes. Acho que esse livro não funciona para adulto com grande carga de boa leitura. A comparação com grandes escritores seria muito injusta com a menina.

- Ah, beleza! Concordo. É, cara, deu minha hora. Vou nessa.

- Beleza! Até. Valeu pelo livro.

Bem... Esta aí é minha opinião. Opinião de leitor, é claro. Não sou profissional da área. E como leitor, achei que Quiçá foi um pouco incensado por parte da crítica. Pensei que essa obra fosse melhor. Um crítico escreveu que a Luísa Geisler já era um escritora completa. Considero um exagero. Espero que ela não acredite nisso e que não se acomode. Ela é muito promissora, mas, a meu ver, ainda está em formação. Pelo talento que ela demostra, tenho certeza que ela pode evoluir muito e se tornar uma grande escritora. Quem sabe pode até marcar o seu nome na galeria dos maiores escritores do Brasil, ao menos entre aqueles do seu tempo! Quiçá!




quinta-feira, 7 de março de 2013

AS AVENTURAS DE PI

Antes de comentar o filme em si, vale a pena contar um curiosidade, que está relacionada com essa produção cinematográfica. O filme As Aventuras de Pi foi baseado no livro Life of Pi, do escritor canadense, Yann Martel, publicado em 2001. Essa obra ganhou o prêmio Booker Prize, um dos mais importantes do mundo e o mais importante da língua inglesa. Até aí tudo bem.

O problema começa quando comparamos Life of Pi com o livro Max e os Felinos, do escritor brasileiro, Moacir Sciliar. As coincidências impressionam. No Life of Pi (já faço aqui também o resumo do filme), por questõs políticas e financeiras, um garoto e sua família se mudam da Índia para o Canadá. A família tem um zoológico e resolve levar os animais para vendê-los no novo país. No caminho, há um naufrágio, e o menino se vê num bote, em alto-mar, na companhia de um tigre.

Agora a história de Max e os Felinos, publicado em 1980 e traduzido para o inglês em 1990, recebendo o nome de Max and the Cats. Na obra de Sciliar, o menino é um judeu que foge da Alemanha nazista para o Brasil. O navio em que está também leva um circo. A embarcação afunda, e o menino se vê num bote, em alto-mar, na companhia de um jaguar. Humm! Muita coincidência, hein!

Fala-se em inspiração e não plágio. Que não se pode plagiar ideia. Sciliar admite isso. Ok. Apesar de controverso, pode ser. Mas, para mim, o autor de Life of Pi, ainda que tenha utilizado elementos novos e tenha dado outro início, final e aplicação à trama, não mereceria o prêmio. Pois o espinha dorsal da obra, a sua grande sacada, o seu grande diferencial,  é exatamente a criatividade de inventar a situação em que se colocam, num bote, à deriva, um garoto e um felino selvagem. Foi essa sacada que me chamou atenção para o filme e creio que tenha pesado na premiação recebida. Se a ideia foi copiada, baseada, inspirada, em algo já existente, o autor perde credibilidade e deveria, portanto, perder o prêmio.

Além disso, seria de bom tom, consultar ou comunicar o autor brasileiro sobre a utilização da sua ideia, o que Yann Martel não fez.  O próprio Sciliar disse não ter sido consultado pelo escritor canadense. Para completar, o autor canadense não deu os devidos créditos ao autor brasileiro. Ele só fez uma pequena menção ao brasileiro no prefácio, sem dizer qual foi a contribuição de Sciliar para o livro. Sem falar que Martel inventou uma historinha bem sem-vergonha para explicar a coincidência. Por tudo isso, há fortes indícios que o canadense tenha agido de má-fé para se apropriar da ideia. Mais um motivo para perder o prêmio.

Aff!! Me empolguei com a confusão entre os livros e me estendi no assunto. Vamos falar do filme então.

Fui ver As Aventuras de Pi sem muitas expectativas. Esperava apenas matar um tempo, divertir-me, com mais um filme de aventura e todos os clichês do gênero. Esperava ver uma história inverossímil, absurda, que abusaria dos efeitos especiais para nos envolver. Enganei-me. Quer dizer, não totalmente, porque alguns clichês existem; não do tipo que eu imaginava, mas existem, como o batido recurso de um escritor que vai procurar um desconhecido para conhecer sua história e transformá-la em livro. Também vemos cenas difíceis de engolir, como a sequência em que ele sobrevive, num barquinho, a uma poderosa tormenta. Perdoáveis. Acertei ainda no item "diversão". O filme diverte, tanto pelas passagens de humor, momentos de emoção, como pela trama em si. A fotografia é belíssima. Os efeitos especiais, tanto visuais como sonoros, impressionam e nos insere nos acontecimentos. Vivemos a aflição e a angústia do personagem. O trabalho feito com o tigre, então... Impressionante! E, claro, temos que destacar a excelente atuação do ator que fez o personagem principal durante os momentos em que o barco está à deriva.

Contudo, As Aventuras de Pi não é só para matar um tempo; vai além disso. O filme nos propõe importantes lições de vida e levanta - às vezes de forma aberta, outras vezes de forma serena, discreta e enigmática - bonitas reflexões sobre a espiritualidade. Inclusive, no aspecto espiritual, o obra deixa a conclusão a critério do expectador. Vale acompanhar essa incrível história, quer você seja religioso ou não.

Ficha Técnica
Diretor: Ang Lee
Elenco: Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon
Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark
Roteiro: David Magee, baseado na novela Yann Martel
Duração: 129 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama

Trailler



Para quem ficou curioso sobre a celeuma gerada pela comparação entre Life of Pi e Max e os Felinos, segue o depoimento de Sciliar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

QUAL É O NOME DO BEBÊ?




Olá a todos! Estou de volta. Demorei, mas voltei. Como, no Brasil, tudo só começa depois do Carnaval, por que eu teria que começar antes? De fato, passei um pouquinho do tempo; mas, para quem estava pensando em voltar somente depois da Páscoa, começar agora é um grande avanço.

Pois bem. Como estou enferrujado e pegando ainda o ritmo, escolhi comentar um filme leve e divertido, que não demanda reflexão pesada, nem para assistir, nem para analisar: a comédia franco-belga, Qual é o Nome do Bebê.

A ocasião é um jantar na casa da irmã de Vicent, em que estão presentes: a dona da casa, o marido, o próprio Vicent (pai do bebê que está para chegar) e um amigo de infância de todos eles. A mulher de Vicent chegaria em minutos. A confusão se instala quando o futuro pai comunica o nome, no mínimo polêmico, que escolhera para o filho. Esse anúncio gera vários conflitos, um puxado pelo outro. Um caos. E tudo começa por conta de um nome.

O filme é muito engraçado. As situações, por vezes embaraçosas, acabam se tornando cômicas em razão das circunstâncias. Uma sucessão de confidências, diferenças e problemas pessoais vem à tona, e a discussão toma rumo totalmente diverso do tema inicial. E vai mudando de direção, conforme surge outro ponto crítico na relação entre os presentes.

Enfim, o jantar que era para ser um celebração, vira briga. E participamos dessa briga. Isso ocorre porque a trama, conquanto seja simples, foi bem amarrada. Os diretores (Alexandre de la Patellière, Matthieu Delaporte) foram competentes em costurar as cenas, as passagens de um conflito para o outro. Não há lacunas, e filme anda sem perder o ritmo. Os atores (Patrick Bruel, Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume de Tonquedec, Judith El Zein), embora nenhum deles apresente uma atuação exuberante, cumpriram a contento o seu papel.

E o destaque é o bom roteiro (Matthieu Delaporte). Criativo e bem elaborado, ele cumpre o que propõe: fazer rir, a partir da reflexão sobre nossas ligações com familiares ou com amigos. Expõe a escolha que, muitas vezes, fazemos pela mentira branca, pela omissão, pelo silêncio, porque a verdade e a sinceridade poderiam comprometer o relacionamento com os nossos queridos. Temos até a proposta de uma discussão política, mas é leve e bem velada. O forte mesmo da produção é o riso, a partir da exposição do emaranhado novelo que se formaria se todas as verdades que existem no subterrâneo das nossas relações pessoais viessem à superfície.

Filme muito divertido.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A QUEDA


Em 30 de setembro de 2000, após um parto difícil em um Hopital de Veneza, que por pouco não acaba na morte do bebê, nasce Tito, o primeiro filho do escritor, jornalista e colunista da Veja, Diogo Mainardi. Alguns meses depois, Mainardi descobre que, em decorrência de erro médico no momento do parto, Tito sofre de paralisia cerebral. Essa condição exige uma série de mudanças na vida do jornalista e de sua família. Essa experiência o levou a escrever A Queda, livro que conta a vida de Tito e a do próprio Mainardi, após a chegada do filho.

Valendo-se de uma estrutura bem diferente, constituída de parágrafos estaques, independentes - inclusive cada parágrafo recebe um número - o jornalista conta, sem linearidade, o que aconteceu no dia do nascimento de Tito e os anos que se seguiram: alegrias, tristezas, dificuldades. Ao lado desse formato criativo, outro recurso que o autor usou para contar a história chama a atenção: a associação que o autor fez entre relatos, fatos, curiosidades - culturais e históricos - com o nascimento e vida do filho.

Certamente resultado de intensa pesquisa,  Mainardi consegue reunir um vasto material, rico e curioso, que torna a leitura bem interessante. Algumas de suas descobertas são realmente surpreendentes dada a coincidência dos fatos com a história de Tito. (Aqui, chamo de coincidência porque o autor quis assim deixar transparecer, mas o leitor pode dar o nome que preferir, de acordo com sua filosofia de vida ou religião).

Sem floreios, sem chororô, sem pieguismo; às vezes até com um humor ácido e com sarcasmo, bem ao seu estilo, Mainardi consegue nos comover e nos envolver em seu drama pessoal. Ainda que não goste do Mainardi como jornalista (eu, particularmente, não gosto e nunca gostei), vale despir-se das concepções construídas a respeito dele e ler o livro.


Bem... Essa é a última postagem do ano. Agradeço a todos que me acompanharam até aqui e desejo a todos ótimo Natal e ótimo começo de novo ano.  Até 2013!!




sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A SEPARAÇÃO


A Separação é um drama iraniano, escrito, dirigido e produzido por Asghar Farhadi, em 2011, e traz em seu elenco os atores... Poxa! Vocês querem mesmo saber quem são os atores iranianos que atuam nesse filme?! O diretor, ainda vai; mas, ator?! Vai servir para quê?! Tá bom! Beleza! Se for para fazer o serviço, faz direito! Ok! Aí vão os nomes (quero ver vocês lembrarem o nome deles depois!): Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Babak Karimi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini, Merila Zarei, Hayedeh Safiyari. 

E agora o momento preguiça de todas as sextas; eis o resumo da história copiado do site Omelete: "Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) estão diante de um juiz para acertar o divórcio; ela quer morar fora do Irã e levar sua filha, enquanto o marido insiste em ficar em Teerã para cuidar de seu pai idoso, que tem Alzheimer. O juiz nega o divórcio, pois não há, no seu entender, um fato suficientemente grave para justificar a separação." Pronto.

Não se assustem porque A Separação não é aquele filme iraniano típico, a que tanto se referem quando, em tom de piada, querem dar exemplo de filmes bem alternativos, cultos, difíceis, inacessíveis. Essa produção não é dessas que a gente, para entender e acompanhar a trama, tem que conhecer os costumes e as peculiaridades culturais, regionais,  sociais, do país. Não! Embora contenha um pouco dessas peculiaridades que citamos, conseguimos acompanhá-lo sem problemas, pois a temática de A Separação é bem universal.

Devido ao bom roteiro, ao bom ritmo, às excelentes atuações e ao estilo de filmagem meio "câmera na mão," que mostram as cenas de forma bem crua, nós somos imersos na história e nos dramas que vivem os personagens. E o que contribui ainda para tonar o filme envolvente foi a competência do diretor ao explorar a sequência de idas e vindas, embaralhamento e reviravoltas dos conflitos, mostrando as virtudes e defeitos de cada personagem. Afinal são todos humanos, que erram e acertam.

Se existe algum pecado foi a ausência de solução, de resposta, para os conflitos. O final é meio vazio. Quando o filma acaba, a gente se pergunta: sim, e daí?

Essa postagem já está ficando grande demais para uma sexta. Assistas ao filme. Muito bom! Até logo!